Uma família de Brasília virou símbolo da busca pelo hexacampeonato mundial de futebol. Dos 22 integrantes da família Silva, 14 nasceram com seis dedos nas mãos e nos pés. A condição genética, chamada polidactilia, faz com que eles carreguem o “hexa” literalmente nas mãos enquanto a seleção brasileira busca a sexta estrela na Copa do Mundo de 2026.
A característica vai além da curiosidade e se tornou objeto de pesquisa científica. Cientistas europeus estudaram a família para entender como o cérebro controla um dedo extra.
Para Silvia Santos da Silva, de 63 anos, a mutação é motivo de orgulho e identidade familiar, principalmente em época de Copa. “Eu já sou hexa. O Brasil é que tem que correr atrás”, brinca a servidora pública da Secretaria de Turismo do Distrito Federal.
A frase foi publicada por ela nas redes sociais durante a Copa de 2014, acompanhada de uma foto da própria mão. A postagem no Facebook viralizou e a família passou a receber jornalistas de vários países. Veículos como Washington Post, USA Today e The Independent associaram os seis dedos ao sonho da sexta estrela. Em Águas Claras, bairro de Brasília onde mora a maior parte dos familiares, eles ficaram conhecidos como “Família Hexa”.
A condição genética é tão comum entre eles que influencia até a expectativa durante uma gravidez. A ansiedade sobre o sexo do bebê fica em segundo plano. “Perguntamos se tem seis ou cinco dedos. É uma questão de torcida em prol do seis. Isso desde o ultrassom”, afirma o advogado Assis Santos da Silva, 66 anos, irmão de Silvia. “Se tem cinco (dedos), aí a pergunta é se é menino ou menina.”
A história começou antes da fama das Copas. Há indícios de que a característica tenha surgido em gerações anteriores, ainda no Maranhão. Foi Francisco de Assis Carvalho da Silva, pai de Silvia, quem transformou a diferença em orgulho. Advogado, músico e dono da carteira número 1 do Clube do Choro de Brasília, ele ganhou o apelido de “Six” e ensinou os filhos a não terem vergonha dos dedos extras. Dos cinco filhos dele, quatro herdaram a característica.
A curiosidade das pessoas continua. Colegas de trabalho querem saber como eles escrevem ou seguram objetos. Crianças pedem para ver as mãos. Maria Morena, de 20 anos, filha de Silvana Santos da Silva, cresceu com esse interesse. A mãe conta que sempre avisava as professoras sobre a condição da filha para evitar constrangimentos.
Algumas adaptações são necessárias, principalmente nos pés. Uma das filhas de Silvia retirou o sexto dedo por questões estéticas, por causa da dificuldade de usar calçados abertos. Os homens sentem desconforto com sapatos de bico fino. Para escrever, eles não colocam a caneta entre o polegar e o indicador, mas dividem a mão com dois dedos de um lado e quatro do outro.
Pesquisa científica na Alemanha
Os seis dedos chamaram a atenção de cientistas europeus. Silvia e o filho, João de Assis, participaram de pesquisas na Universidade de Freiburg, na Alemanha, em 2017. O objetivo era entender como o cérebro controla um sexto dedo funcional.
O estudo, feito em parceria com instituições britânicas e suíças, concluiu que pessoas com seis dedos têm músculos, nervos e áreas cerebrais específicas para controlar o dedo extra. Em vez de sobrecarregar o cérebro, a estrutura amplia as possibilidades de movimento. Os participantes conseguiam fazer tarefas complexas com uma mão, com movimentos independentes impossíveis para quem tem cinco dedos.
João de Assis, hoje engenheiro de software, disse que participar da pesquisa foi uma oportunidade para entender a própria biomecânica e contribuir para o desenvolvimento de ferramentas que possam ajudar outras pessoas. Os cientistas usaram os dados como modelo para a engenharia e a robótica, pensando em criar próteses robóticas extras para auxiliar cirurgiões no futuro.
