05/06/2026
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ONG de produtora de ‘Dark Horse’ contratou advogado de Frias com verba pública

ONG de produtora de 'Dark Horse' contratou advogado de Frias com verba pública

O Instituto Conhecer Brasil (ICB) contratou um escritório de advocacia que representou o deputado federal Mário Frias (PL-SP) em quatro ações na Justiça para atuar em um programa com a Prefeitura de São Paulo. O programa, que prevê a manutenção de pontos públicos de Wi-Fi em comunidades da periferia, é alvo da Polícia Civil por suspeita de fraude e desvio de dinheiro público. Uma operação com buscas e apreensões foi realizada na última segunda-feira, dia 1º.

De acordo com a prestação de contas obtida pelo Estadão, o advogado recebeu R$ 341,9 mil da ONG, mas não há detalhamento dos serviços prestados. A informação sobre a contratação foi divulgada pelo portal UOL.

O ICB é presidido por Karina da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, inspirado na vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O roteiro do longa é assinado por Mário Frias. A Polícia Civil suspeita de confusão patrimonial entre o instituto e a produtora, com possível desvio de recursos do contrato público para custear o filme.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo negou irregularidades e classificou os fatos como “ilação”, “sem fundamento” e “sem provas”.

Contrato de R$ 108 milhões

Em junho de 2024, o ICB firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura para instalar pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades de baixa renda da capital. O convênio prevê a instalação de 5 mil pontos, dos quais 3.200 já foram implementados. Em dezembro de 2025, o contrato recebeu um aditivo de R$ 49,1 milhões para manutenção dos equipamentos, elevando o total de repasses para R$ 157,1 milhões.

O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, da 2ª DICCA, escreveu em ofício que há “suspeitas de confusão patrimonial” e de que os recursos do programa “WiFi Livre SP” foram desviados para a produção do filme. Ele requisitou ao Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) a análise das movimentações financeiras de Karina da Gama, do ICB e da produtora Go Up Entertainment.

Pagamentos ao escritório

Segundo a prestação de contas, entre julho de 2024 e julho de 2025, foram feitos 12 pagamentos ao escritório Aguilera Martinez. O primeiro repasse foi de R$ 151 mil em julho de 2024, seguido de 11 parcelas de R$ 17,3 mil. As despesas são descritas como “prestação de serviços jurídicos”, sem especificação dos serviços.

No mesmo período, o escritório representou Mário Frias em três processos na Justiça Eleitoral e um na Justiça Estadual de São Paulo. Os processos eleitorais tramitam desde abril de 2023, e o escritório atua desde novembro daquele ano. O processo na Justiça Estadual foi encerrado em junho de 2024, no mesmo mês em que o contrato com a Prefeitura foi assinado.

Em nota, a Prefeitura afirmou que “o fato de o escritório também atender o parlamentar mencionado não configura qualquer irregularidade” e que o ICB foi selecionado por chamamento público.

Outro advogado contratado com emenda

A produtora de “Dark Horse” também contratou um segundo advogado de Mário Frias com dinheiro de emenda do próprio parlamentar. Em 2024, Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão cada para projetos do ICB, vinculados aos Ministérios do Esporte e de Ciência e Tecnologia.

No projeto “Jovem Empreendedor”, da pasta de Ciência e Tecnologia, a ONG fez dois repasses em fevereiro deste ano para uma empresa do advogado Fabio Lago Meirelles: R$ 30 mil para serviços de contabilidade e R$ 50 mil para serviços jurídicos. Meirelles defendeu Frias em ao menos nove processos entre 2022 e 2026.

Contratação de dirigente

A ONG também usou a emenda para contratar o produtor de eventos Marcelo Machado, que é dirigente de outra entidade presidida por Karina, a Academia Nacional de Cultura. Machado recebeu R$ 50 mil para serviços de “divulgação” no projeto “Jovem Empreendedor”, transferidos para sua empresa MM7 em fevereiro. A lei proíbe a contratação de dirigentes de ONGs por conflito de interesses. Machado não respondeu aos contatos da reportagem.

A Academia Nacional de Cultura, assim como o ICB, está sob investigação do Supremo Tribunal Federal por possível uso de verbas públicas para a produção do filme sobre Bolsonaro.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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