20/06/2026
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Omissão sistêmica: como Vorcaro usou o sistema a favor do Master

Omissão sistêmica: como Vorcaro usou o sistema a favor do Master

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém viu as irregularidades do Banco Master. “O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo”, disse.

Especialistas divergem sobre o que causou essa cegueira em instituições públicas e privadas até a liquidação do Master e a prisão de Daniel Vorcaro em novembro do ano passado. Eles concordam, porém, que Vorcaro e seus companheiros usaram a favor do banco os sistemas regulatório, político e jurídico que incentivam a omissão. Isso abriu espaço para a fraude bancária mais cara da história do país.

As estimativas indicam prejuízos de R$ 60 bilhões. O valor supera as principais crises bancárias dos últimos 20 anos e as perdas da Lava Jato, que ficaram entre R$ 29 bilhões, segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), e R$ 42 bilhões, conforme a Polícia Federal.

O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, acompanhou crises de instituições como Santos, Panamericano e Cruzeiro do Sul. Ele afirma que a dinâmica da omissão contaminou as estruturas de regulação e fiscalização nos últimos anos, gerando distorções.

Costa apresenta duas leituras para o caso Master. A primeira é a do escândalo, com falhas individuais e conluio. A segunda é mais técnica: os sistemas não oferecem incentivos à reação, fazendo com que cada agente perceba que tem mais a perder vendo do que não vendo.

O caso Master trouxe exemplos dessa dinâmica. Em 2024, três gestores da Caixa Asset, braço de investimentos da Caixa Econômica Federal, foram afastados após redigirem um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do banco de Vorcaro. Em 2025, a diretoria da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) julgou um caso da Ambipar, envolvendo o Master e o empresário Nelson Tanure. O então presidente da autarquia, João Pedro Nascimento, votou contra as empresas e renunciou nove dias depois. O interino Otto Lobo reverteu o voto, dando ganho de causa às empresas. Em janeiro deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou Lobo para a presidência da CVM.

O economista Marcos Lisboa aponta dois componentes que incentivam a letargia do sistema. O primeiro é o risco de sanções para quem age preventivamente. Servidores que tentam evitar fraudes podem ser acionados na Justiça ou enfrentar questionamentos do TCU. O próprio TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”.

Nos Estados Unidos, o ambiente é oposto. Quem faz um alerta preventivo não sofre penalidades e pode receber prêmio em dinheiro. A False Claims Act, de 1863, autoriza cidadãos a propor ações contra fraudadores e garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act, de 2010, criou um programa de denunciantes na SEC, com prêmios de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão.

Outro problema, segundo Lisboa, é o tratamento difuso da responsabilidade solidária no mercado financeiro. Pelo Código de Defesa do Consumidor, todos os integrantes da cadeia respondem por um produto. “As corretoras são responsáveis pelos produtos financeiros que oferecem”, diz.

As demonstrações financeiras do Master mostravam riscos. Em 2020 e 2021, o banco concentrava ativos em precatórios e direitos creditórios federais, de liquidez incerta. Em 2023, 80% da carteira de títulos era composta por ativos de baixa liquidez. Em 2024, dos R$ 18,4 bilhões em depósitos interfinanceiros, R$ 17,9 bilhões vinham de partes relacionadas, indicando dependência de recursos do próprio grupo.

O economista Roberto Teixeira da Costa afirma que a fragilidade do Master era identificável. “Se um CDB paga muito acima do mercado, já é um alerta”, diz. Ele defende a recalibragem do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que cobre até R$ 250 mil por CPF. “Deveriam reembolsar 75% do valor investido para obrigar as pessoas a avaliarem os riscos.”

O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, destaca a presença de altas autoridades na rede de influência de Vorcaro. “Essa rede reuniu representantes nos três Poderes, incluindo parlamentares, ministros do Supremo e pessoas no Executivo”, afirma. Para ele, essa proximidade intimida e desincentiva investigações.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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